poesia

às vezes esqueço-me que nem sempre posso ser Poeta.
comporto-me para com a minha poesia como a mãe que vive a vida do filho ou como o pai que se esquece dela.
esquecendo a fluidez graciosa e suficiente que une cada átomo da palavra bem concebida.
ou segregando todos os mundos necessários, numa perspectiva estupidamente antropomórfica e, por isso, descontextualizada, da geração poética.


soluções para evitar poesia filha de pais disfuncionais?
ser uma filha exemplar e ir a casa dos pais comer nozes, por exemplo.
ao invés de forçar os dedos a deturpar o "desejo de comer nozes", tornando a realidade mais implacável que um quebra-nozes e, pior, esquecendo o seu sabor.
em detrimento disso, por entre a arte da mãe e a determinação do pai, uma vez retiradas cascas, películas e afins, surgiria a noz, nua e crua.
vulnerável a todo e qualquer contorno ou protuberância poética.
cinzenta e eficiente.

texto: Ela
imagem: Joe Webb